Corpo.
Venho por meio destas criptografias realizar uma incursão no âmbito das letras, em torno de ou ao
centro de minhas questões de pesquisa.
Corpo.
Senão vejamos: o começo já se instalou e cá estamos para reatualizar o amontoado de signos que em
si engendram a raiz de uma linguagem. Letra. Língua. Garganta. Peito. Segundo
minhas percepções do mundo (completamente dilaceradas e reconstruídas por
influências artísticas) tudo se resume (ou se resume ao contrário) a corpo.
Corpo.
Chega de justificativas.
Corpo.
O corpo que encontro quando
compro mamões ou os como, o corpo que sigo ao dançar, o corpo que me assalta
como bomba-relógio acelerada por um susto, corpo que tem vertigem quando estou
perto da queda, o corpo que o espelho vomita, o corpo que vomita, se contorce,
o corpo que sente o vento ou o segue, o corpo que lê esse texto, com os ouvidos
abertos pra chuva ou caminhão ou pássaros, com as tensões na mandíbula nos
olhos ou em toda face, nos ombros, no trapézio, o corpo confortável, o corpo
que resiste à mudança e o corpo que se entrega pra ela. (Peço clareza aqui em
relação às orações nas quais me refiro ao corpo como idéia de corpo, e
manifesto que não é disso que quero tratar, tampouco de um conceito fixo e
delimitado, quer seja biológico, antropológico ou mesmo metafísico, também
àquelas nas quais fica presente uma idéia de meu corpo, melhor seria eu
corpo, e sei que ainda assim precisaria pedir alguma espécie de perdão por
dizê-lo deste modo).
Corpo.
Agradeço
àqueles que lêem e me dão a liberdade dos poetas, tomando a
responsabilidade de entender o que quiserem entender a partir daquilo
que lêem; aos que tem referenciais acadêmicos acerca dos termos que os
usem e aos que não tem que usem sua imaginação, referências pessoais ou
mesmo um Michaelis qualquer.
(É detestável se desculpar sobre o que se escreve. Peço desculpas por todas as minhas justificativas e agradecimentos).
Body.
Estou interessado nas linhas (talvez não em formato
linear) que atravessam o corpo, e por isto mesmo o constituem e o tomam
como um
grande tema filosófico que não poderia encerrar-se com pouca demanda.
Nietzsche, Deleuze, Artaud, Abramovic, Gil², Zumthor, o reclamam.
(tomemos
reclamar como clamar mais de uma vez). O corpo como possibilidade de
engendrar
uma arte presencial que nos suscita o contato, visível ou invisível, mas
em muitos casos sensível, por entre as brechas, vácuos e arestas de
nosso
cotidiano; para que além dos comerciais de margarina possamos criar
também uma arte insensível². Em que medida insere-se como dança, até
onde ela vai e pra quem e
para quê ela aparece e com o que se parece; quando as Artes Visuais
englobam o
corpo para além de uma visão que o coloca como instrumento manipulador
de
instrumentos que criam obras fora de si e porque existe um espaço
chamado
galeria de arte que nos traz uma pré-concepção de referências que devem
lá
estar; em que momento a performance aparece como ritualização de
uma linguagem oral genuína, e como pode nos
revolver em seus sentidos filosóficos, antropológicos, artísticos e
políticos
sem perder sua capacidade poética, quase viral, com ou sem palavras;
como a
escrita pode transcender (palavra perigosa, envolvendo medo acerca de
tudo aquilo que vai alem de...) o amontoado de informações e
alcançar uma vida própria que está na linguagem antes da linguagem, que
confere
potência de vida ao abrir possibilidades criativas pra quem lê, quando
se cria
o sistema escritor escrito leitor e aí se enclausura algo, como chegar
no
cerne, e no corpo, e no cerne do corpo, e esse cerne dilacerado pra
todos os lados, não-fixo, como incluir sensações e reatualizar o presente que inclui o
entorno, a mão que segura o livro ou descansa próximo ao ecrã do
computador;(coloque interrogações onde quiser); o corpo atravessando e sendo
atravessado por tudo.
Corpo.
Afasia.
Corpo.
Não à toa, até aqui, uma palavra se repete em itálico e se assemelha a
outra também em itálico.
Me refiro a elas como uma possibilidade de concentrarmos
nossas atenções neste presente mutável e impermanente que estamos e focarmos
neste novo espaço de co-criação que se abre, uma relação que vai ao encontro do
ato performativo da leitura e de escolhas, comer uma maçã enquanto se lê ou
não. Reatualizar no sentido de
remontarmos a situação já sabida, ou seja, ler, num novo tempo presente; tomo
emprestado aqui uma frase de Julio Cortázar como ela habita minha lembrança e por
isso já recriada por mim: ao abrirmos uma lata de sardinhas não o façamos como
se estivéssemos abrindo ao infinito a mesma lata de sardinhas. Ritualização
se assemelha não no sentido
sacro da palavra, mas quando a atenção converge em presença para um ato
comum,
neste caso aqui e agora, o espaço escrever-ler em co-criação para além
do
verbo. Perguntar-se em que medida todas as nossas imanências se fundem e
destoam nos compele no mínimo a nos posicionarmos com nossas
possibilidades e
capacidades de escolha. A dança, as artes visuais, o teatro, a
performance, a
literatura, atravessam m(eu) corpo. A filosofia e a antropologia emergem
como
alternativas de ancoramento de um barco à deriva e em contrapartida são o
içar
de âncoras de um território conhecido. Para além de pistas e pontos de
apoio,
um sistema concreto de base permeia os questionamentos e a estrada que
enveredo
com foco, um sistema que parece ter haver com algo do zero, o potencial
criativo imanifesto e o mesmo potencial imanifesto ao contrário, algo
não-fixo, a dúvida transando com a certeza(os dois), o espaço existente
entre a inspiração e a expiração, o brilho dos olhos do filho dos dois.
Permear e habitar, como possibilidade criativa e renovadora da arte,
qualquer
território limítrofe, já sabendo da convergência do para ao com o corpo.
Espaço é corpo. Espaço é artéria, nós somos sangue. Espaço é corpo.
...
Bóta no google imagens: corpo.
Não há, por conseqüência, nenhum
afastamento possível do corpo que se implica na pesquisa dela própria, por
onde, possivelmente, podemos flertar com algo ainda além do conceito de práxis, pois num sentido atual já
encontra-se impregnado (ele mesmo, o corpo, esse corpo que vos fala, que tenta
remontar a voz por entre as linhas pretas e símbolos requerendo decodificação)
de teoria prática ou de uma prática teórica. Assim encontramos aqui a
proposição corpo-continente pretendendo ir além das pontes com outros
corpos-continentes e remontar uma pangéia contemporânea sem abandonar seu
paradoxo que reorganiza caoticamente linhas de força infinitas em todas as
direções.