Não
pretendo com isto aqui estabelecer qualquer espécie de ensaio ou crítica.
Tampouco
gosto de ter que avisá-lo de antemão.
A exposição
de Nick Rands me suscitou várias coisas, digo coisas por ser a única maneira de
mencionar aquilo que é atemporal e inclassificável dentro de um sistema
número-letra-símbolo desta linguagem escrita que pseudo-domino. Ainda que a própria
frase precedente e muitas das que se seguem possam nos bombardear em contradição,
quiçá paradoxo, não podem de maneira alguma definir exatamente o que o estado
rizomático de relação entre pensamentos, intuições, sensações, sentimentos,
sonhos, realidades, passados e passados ao contrário (me) produziram a partir do
contato com a obra.
Digo que,
microperceptivamente, aconteceram coisas que meu estado de apreensão atual, mesmo
que ampliado após e durante o contato com as obras do artista, não consegue dar
conta para traduzir e, assim mesmo, aqui me valho de todas minhas
possibilidades para perseguir este invisível, oriundo de uma arte insensível,
insensível no sentido de José Gil.
O corpo.
Músculos, ossos, vísceras, órgãos.
O corpo sem
órgãos. O limite dentro-fora.
Sangue. O
sangue circulando por dentro do corpo, as linhas de força atravessando tudo.
Identidade.
Artaud.
Bauman.
O Invisível
do visível.
Não estou
em posição de dizer sobre aquilo que eles falam, pois eles falam por si mesmos,
assim como não estou em posição de falar sobre a exposição, que também, e
felizmente, fala por si só. Apenas cá estou pra manifestar, da forma que mais
me parece conveniente a mim mesmo,
as coisas
que fluem através de mim a partir do contato que tive, fulminante.
Nada melhor
pra mim que fazer isto, justamente para lidar com aquelas coisas que o
pensamento, sozinho, não dá conta.
Nada melhor
que trabalhar sinestesicamente, com todos os sentidos, e outros, e a mistura
deles, para se envolver com uma obra.
E nada
melhor há que obras que nos despertem e suscitem isto, sem que precisemos
perseguir com esforço, tentando co-criar com o artista, coisa que, aliás, já
deveríamos estar preparados por princípio, mas que não deve, como foi o caso, nos
ser de demasiado esforço atingir.
As linhas
de força, as linhas de fuga, aquilo que o olho buraco-negro absorve e aquilo
que o olho buraco-branco emite naquilo que co-cria ao observar.
Está tudo
lá, e muito mais, muito mais está lá. E por conseguinte aqui, com resíduos,
aqui agora.
A
preciosidade de um trabalho que traz em si a presença da complexidade
apresentada de forma simples.
Organizado em vários sentidos, mas principalmente no sentido orgânico, próximo da vida, da
história, das marcas invisíveis que manifestam no visível do corpo uma vida, um
reconhecimento, um movimento em processo interdependente e (porque não?)
humanitário. A artéria-espaço preenchida de nosso sangue-corpo-vida,
percorrendo um caminho dentro do invisível, onde dois corpos ocupam sim o mesmo
lugar no espaço, diante da derrocada temporal, do manifesto da eternidade
dentro de um diamante bruto de presença, e encontros não marcados, não óbvios,
não percebidos com a percepção grossa e fria, mas remontados e liquefeitos,
quase entropicamente e por paradoxo complementar apresentados dentro de uma
estrutura visual corporal, pela
mão-mente-lápis-corpo-órgão-máquina-fotográfica-coração de um artista, deste
artista. Recomendo o trabalho de Nick Rands: Did I see Another Angel? .
