sábado, 3 de dezembro de 2011

Small Dance - Sessão de Cinema - Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre - Novembro 2011


todas as caveiras sorriem, parabéns grupo experimental!
Venho por meio deste relatório informar, através de produção textual, subjetiva por opção, algumas reflexões sociais a partir do trabalho realizado no Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre, com oficina de Contato Improvisação, técnica e filosofia de dança que tem como base o contato físico, baseada na ação das forças físicas operantes no universo, colocadas em jogo sobre dois ou mais corpos em contato e em movimento, com um caráter de improvisação. O trabalho realizado aconteceu mediante um grupo oscilante de mais ou menos quinze pessoas, que estão em formação na área de dança, de forma não acadêmica, mas prática; um dos objetivos foi transcender a questão técnica da dança e alcançar um aprendizado social.

Historicamente, o Contato Improvisação surge consorciado a um conjunto de questionamentos de ordem cultural e sócio-política de profundas implicações se elegemos, como foco de reflexões, os tópicos “poder” e “autonomia”. Tratava-se de um contexto onde artistas dos mais diversos campos não tinham a pretensão de que suas artes fossem alvo ou instrumento apenas de considerações estéticas. Desta forma, a agenda dos pioneiros incluía movimento, força gravitacional, contato, performance, tanto quanto políticas de gênero, confrontações de relações hierárquicas, estruturas de legitimação da arte, limites da arte para vida real, sexualidade, economia, política, comunidade etc. Como podemos identificar essa agenda e contexto histórico sedimentados ou ativos nos princípios técnicos, abordagens metodológicas, reunião de pessoas em torno da prática, configurações de investigação e movimento que podemos identificar no Contato Improvisação hoje? Entendendo que as coisas e atividades com as quais os nossos corpos se engajam reforçam estruturas de pensamento e visão de mundo nesses mesmos corpos, que idéias o Contato Improvisação reúne, com que outras comunidades de pensamento se afina? É possível identificar no Contato Improvisação uma prática nucleadora de idéias que servem ao empoderamento do indivíduo e sua autonomia? Como? Em que contextos? Com que alcance?1

Deu-se, na prática das aulas no Grupo Experimental, um processo educacional mediado pela corporeidade. Isto porque a educação não se esgota na instrução de conteúdos de conhecimento, ela passa necessariamente pelo corpo, pela capacidade de sentir, ouvir e tocar o mundo. Segundo Ferreira2, o corpo todo do ser humano é seu limite de captação do mundo. É, pois, mediante sua corporeidade que a pessoa chega às

1 Texto de Hugo Leonardo, Doutorando em Artes Cênicas e Mestre em dança pela Universidade Federal da Bahia.

2 FERREIRA, N.T. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

coisas. Qualquer observação, no entanto, é incompleta, pois não tem como incorporar a complexidade e a dramaticidade das experiências observadas. Houve a preocupação e cuidado em não “depositar” informação, cultura. E sim abrir uma possibilidade de construção educacional e artística, cultural, respeitando o direito à diferença. Um projeto e trabalho que respeitou aspectos mais sensíveis, sociais, estéticos e lúdicos, pois entende que a educação e a cultura se atravessam positivamente, e se refletem na capacidade de sentir, ver, ouvir, tocar o mundo.

Assim, a participação contínua nas aulas buscou permitir que novos códigos fossem internalizados no artista em formação, criando pontes entre o indivíduo e aquilo que ele toca no mundo.

O processo de aprendizagem é fundamentalmente autoral, o aprendiz vai construindo seus próprios movimentos a partir de determinadas propostas. O trabalho se instaura a partir de uma concepção de transformação, lidando com a idéia de trânsito, mobilidade, passagem, troca, como um processo alquímico. Essa alquimia se dá entre a história do aprendiz e a dança que ele dança, ou seja, todos os seus passos carregam sua subjetividade, seus sonhos e desejos. Não existe somente um modo de se dançar, cabendo a cada um descobrir e redescobrir e experimentar novas possibilidades de movimento. Ocorrendo um alargamento de possibilidades, que deslocam o indivíduo de suas marcas mais óbvias.. Conglomerando sua postura social com sua capacidade criativa. E o que mais importa, assim, é a possibilidade de criar: relações, identidades, realidades, arte. A intensidade da potência criativa mostra a dimensão da existência. A capacidade de viver o lúdico e o estético e o sensível também definem o vigor de uma cultura. Há a criação de uma rede de sentidos que orienta as práticas cotidianas. Este processo se dá no aprimoramento da capacidade artística, técnica, expressiva, de sensibilidade, e de várias formas estas possibilidades se comunicam com a educaçãoe a cidadania.

Alguns relatos:

"Iniciamos a aula através de seu corpo e sua consciência sobre o mesmo.

Caminhamos ao longo da sala como gatos, usando nosso volume e nosso derretimento.

Foi muito bom, voltar a tocar, sentir, fazer, perceber, eu e o outro.

Ao longo da aula, fomos ganhando autonomia do nosso corpo sobre o corpo do outro.

Experiência Mútua. No contato, ainda sinto um cuidar e acho que percebo foco demais.

Será que não sou eu que espero demais? Vou pensar mais com o corpo!”

"Fazer sua pequena dança foi algo reconfortante e instigante. Me senti como um balão de ar, voando ao longo da sala. Meu corpo era só meu! Fico com a sensação do intocável e comunicável, ao meu perceber. Em duplas ou trios, percebi e senti a energia dos corpos, entrelaçando suas cinesferas. Tocar o outro e perceber, é ser eu mesmo, longe da razão. Viva o interior!"

“Sobre o que vivi com as aulas de contato e improvisação, posso descrever que sinto meu corpo hoje mais aberto ao diálogo.

Se transforma o olhar e a escuta desde a respiração interna à transpiração pelos poros da pele.

A diferença que faz ao me permitir o tato. Sentir o espaço, eu e o outro.

Descobrir um outro estado de presença. Uma percepção mais apurada.

Sentir o encontro, deixar fluir. Identificar as pontas e arestas.

Ser natural.”

“Gostaria muito de poder levar adiante essas descobertas”

“Sobre as aulas de contato, acho que mais do que qualquer outra coisa, tens me ensinado a entrar em contato comigo mesma. Acho que toda a energia que investes nas tuas aulas é absorvida. Creio que a técnica tem me mostrado outras possibilidades de me encontrar, de encontrar meu chão, para poder compartilhar coisas com outros.”

“A técnica é rica, teu empenho enquanto compartilhador e instrutor dela é admirável, a possibilidade de conviver em contato contigo e com colegas é um prazer. Só tenho a te agradecer pela oportunidade de convívio e aprendizado.”

Honrando a grande premissa do trabalho, que foi organizar e experienciar um aprendizado a partir do corpo e do contato dos corpos, aqui se conclui as reflexões e relatos sobre a oficina. Trazendo também a referência de que boa parte da produção reflexiva se deu a partir do contato com o livro: Sinais Sociais, 16. Pensando projetos sociais de dança. Monique Assis e Nilda Teves.

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