sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Tornar Visível o Invisível do Visível




Não pretendo com isto aqui estabelecer qualquer espécie de ensaio ou crítica.
Tampouco gosto de ter que avisá-lo de antemão.
A exposição de Nick Rands me suscitou várias coisas, digo coisas por ser a única maneira de mencionar aquilo que é atemporal e inclassificável dentro de um sistema número-letra-símbolo desta linguagem escrita que pseudo-domino. Ainda que a própria frase precedente e muitas das que se seguem possam nos bombardear em contradição, quiçá paradoxo, não podem de maneira alguma definir exatamente o que o estado rizomático de relação entre pensamentos, intuições, sensações, sentimentos, sonhos, realidades, passados e passados ao contrário (me) produziram a partir do contato com a obra.
Digo que, microperceptivamente, aconteceram coisas que meu estado de apreensão atual, mesmo que ampliado após e durante o contato com as obras do artista, não consegue dar conta para traduzir e, assim mesmo, aqui me valho de todas minhas possibilidades para perseguir este invisível, oriundo de uma arte insensível, insensível no sentido de José Gil.
O corpo. Músculos, ossos, vísceras, órgãos.
O corpo sem órgãos. O limite dentro-fora.
Sangue. O sangue circulando por dentro do corpo, as linhas de força atravessando tudo.
Identidade.
Artaud.
Bauman.
O Invisível do visível.
Não estou em posição de dizer sobre aquilo que eles falam, pois eles falam por si mesmos, assim como não estou em posição de falar sobre a exposição, que também, e felizmente, fala por si só. Apenas cá estou pra manifestar, da forma que mais me parece conveniente a mim mesmo,
as coisas que fluem através de mim a partir do contato que tive, fulminante.
Nada melhor pra mim que fazer isto, justamente para lidar com aquelas coisas que o pensamento, sozinho, não dá conta.
Nada melhor que trabalhar sinestesicamente, com todos os sentidos, e outros, e a mistura deles, para se envolver com uma obra.
E nada melhor há que obras que nos despertem e suscitem isto, sem que precisemos perseguir com esforço, tentando co-criar com o artista, coisa que, aliás, já deveríamos estar preparados por princípio, mas que não deve, como foi o caso, nos ser de demasiado esforço atingir.
As linhas de força, as linhas de fuga, aquilo que o olho buraco-negro absorve e aquilo que o olho buraco-branco emite naquilo que co-cria ao observar.
Está tudo lá, e muito mais, muito mais está lá. E por conseguinte aqui, com resíduos, aqui agora.
A preciosidade de um trabalho que traz em si a presença da complexidade apresentada de forma simples.
Organizado em vários sentidos, mas principalmente no sentido orgânico, próximo da vida, da história, das marcas invisíveis que manifestam no visível do corpo uma vida, um reconhecimento, um movimento em processo interdependente e (porque não?) humanitário. A artéria-espaço preenchida de nosso sangue-corpo-vida, percorrendo um caminho dentro do invisível, onde dois corpos ocupam sim o mesmo lugar no espaço, diante da derrocada temporal, do manifesto da eternidade dentro de um diamante bruto de presença, e encontros não marcados, não óbvios, não percebidos com a percepção grossa e fria, mas remontados e liquefeitos, quase entropicamente e por paradoxo complementar apresentados dentro de uma estrutura visual corporal, pela mão-mente-lápis-corpo-órgão-máquina-fotográfica-coração de um artista, deste artista. Recomendo o trabalho de Nick Rands: Did I see Another Angel? .


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