Descobri uma certa relação de tempo e espaço.
Estou
simplificando a coisa, é claro.
Não
descobri.
Já sabia.
Mas trago
mais próximo do complexo além das células que por sua vez já continham em si o
engendramento do que quero falar agora.
Me refiro
ao MA do butoh Hijikatiano mas não é bem isso só isso.
A
valorização da diferença é o principal enraizamento necessário para o jardim.
Quero me
referir à deterioração de toda moral que necessita dela mesma para poder virar
Pátina Natural aos olhos ocos.
Não se
valha do racionalismo ou cartesianismo ou caretismo pra dessincronizar o
significado para além da significação que aqui pode vir a aparecer.
Tampouco
queira a esquizofrenia, intuição vaga, surrealismo, dadaísmo ou coisa que o
valha como lei.
Importo-me
com a relação possível com cada acentuação manifesta, e o estado bruto da
criação.
Houve um
tempo em que escrever me parecia ser o lugar máximo de minha existência, a
plenitude de minha expressão no mundo.
Hoje,
este lugar me parece distante.
Agora,
sinto uma relação sinestésica e afásica que se esforça para encontrar termos
que deem a ver o que se quer ao mesmo tempo em que não enclausurem a peça-chave
em contato com a informação.
Um
sistema complexo de informação que vagueia por sintonias possíveis e que
estabelece pontes criativas por meio do pensamento.
A
pretensão de ser essa uma escrita de corpo só equivale à sua possível
frustração ao encontrar pescoços rígidos.
Houve um
banho na água da rebeldia em algum momento de minha estruturação.
Aqui,
pesquisando sobre o corpo de bueiro, sobre butoh de hijikata, encontro minhas
grutas e caminhos, meus canos que construo para que passe água quente.
Não
poderia ser diferente, realmente acredito que só existe uma maneira adequada de
se mover, e que tem a ver com cada um ter sua própria maneira de se mover.
Não
necessário é negar ou afirmar qualquer caminho ou fonte, creio que o processo
digestivo é o que mais importa.
Neste
ponto, não acredito como cerne daquilo-arte que manifesto uma preocupação com a
representação, imitação, aprendizado clássico ou com formas preestabelecidas.
Acredito
em caminhos que apontam ou sugerem ou inspiram o caminho individual de cada um.
A possibilidade
de questionamento sempre me acompanhou e hoje encontra sua maneira de lidar com
a moral, com o aprendizado social do movimento, das habilidades precárias que
elegemos para servir ao mundo em que estamos.
Percebo
um momento oportuno de minha maturidade.
Percebo
as possibilidades de, com um picão, fazer um furo que estoure o cano por
dentro.
Percebo
como me é necessário o contraponto absurdo do comportamento normótico para que
minha maneira de mover e comunicar se expresse e encontre formas de destruir os
alicerces da construção que não me faz sentido e por sua vez é justamente
aquela que me é necessária, como um dínamo do ser movente que possa devir.
Fluxo,
Consciência, Estados CorpoMente, é um papo complexo.
Mas é
isso que me encanta no momento.
Corri uma
hora sem praticamente sair do lugar. Deixei a marca de meu suor pelo caminho.
Ao parar por menos de dez minutos, deixei a marca do corpo no chão de madeira.
Em seguida corri mais uma hora, sem, novamente, praticamente, sair do lugar.
Digo
corri porque é a ação que mais se assemelha aos gestos corporais que me
engajava durante este tempo e em referência ao espaço, mas no fundo estava em
gerúndio espaço-tempo.
Minha
ação performática possuía o respaldo da instituição.
Ainda
assim, arestas no cotidiano puderam ser captadas durante o processo.
Muito
suor saindo do corpo.
Pessoas
apressadas.
Árvore de
Natal.
Nunca
mais este prédio em que estamos...
Não
vejo a hora de tirar minha aposentadoria.
Televisão
ligada.
Quantos
Quilômetros?
Rastro de
suor.
Correr
sem sair do lugar, praticamente, não era nada senão uma experiência individual
minha, um rito pessoal, uma pesquisa sobre limites do corpo e de meu estado de
vigília e percepção diante de uma ação repetida com rigor e intensidade, mas
que necessitava do testemunho, a outra parte, aqueles que não se esvaíam ao
limite concreto numa concentração de duas horas.
Talvez
fosse uma tentativa minha de concentrar a vida que se esvaía dos poros, desde
sempre de uma forma diluída.
Eu não
era mais intenso que cada marca que cada corpo que cada linha perceptiva e
existencial disposta em qualquer canto do prédio da Fundarte.
Por outro
lado, criei a minha mitologia pessoal que engendrava a certeza interior de que
eu estava fazendo exatamente o que deveria estar fazendo enquanto o estava
fazendo.
Não
haveria como estar por dez minutos, necessitava estar num lugar zero, quero
dizer, eu não poderia saber que já estava há tanto tempo, não poderia saber
quanto tempo ficaria a partir dali.
Vazio de
intenção, porosidade para transbordamento, não dizer ao outro o que a minha
mente percepção cria de significado a partir de minha ação e do encontro com
outras ações e corpos e timings.
De forma
alguma a brigada militar poderia aceitar minha ida pra rua, eu tinha plena
certeza disto.
Tenho,
por certo, também, que a cueca branca, tornada transparente devido à intensa
sudorese, seria o gancho com o qual pescariam minha tentativa tola de abalar
algum pedaço de corpo social que pudesse resguardar um resquício de sensibilidade
e atenção à diferença, que dado o contexto, minha ação na rua poderia ser tanto
ínfima como cavalar, grotesca ou sublime, e quanto a isso, minha escolha foi
não ter a pretensão de querer a significação que mais me conviesse ou parecesse
adequada. Quero a criação alheia a partir do contato.
Barreira
numero 1: Loucura.
Acho
que ele é esquizofrênico
Loucura
tem que ver com medo e controle, sim?
Moço,
você está bem?
Faço que
sim com a cabeça.
Moço,
você precisa de ajuda?
Faço que
não com a cabeça.
Não satisfeita,
a moça pergunta outras vezes, mais e mais vezes, eu paro de menear a cabeça,
algumas crianças riem, percebo câmeras me filmando, escuto uma voz dando o
endereço, por telefone, da esquina em que estou correndo sem avançar.
Neste
momento, ao mesmo tempo em que me deleito com a imagem que faço de minha
própria ação de correr com muito vigor sem avançar, percebo o movimento ao meu
entorno como uma necessidade de controle social, sob o pretexto de uma
preocupação com minha saúde, com o chamamento da polícia, resolvo voltar para a
Fundarte, onde desde o início possuía respaldo da instituição.
Crio
hipóteses sobre pudor, violência, autoria, corpo, normose, cotidiano, controle,
poder; e resvalo pelo terreno obscuro das roupagens possíveis destas mesmas
coisas.
Então
penso se ter uma autorização policial e médica poderia me permitir estar na rua
realizando este ato com meu próprio corpo.
De fato
preciso experimentar com um calção qualquer.
O velho
aprendizado em tornar-se cada vez mais sutil.
A
insalubridade que experimento em meu próprio centro gravitacional ao adequar
minha postura e movimentação ao sistema de movimentos adequados socialmente é
tão intensa que, ao fazer a escolha de não abandonar minha sensibilidade,
criatividade, porosidade, antropofagismo único mutante não linear e nem
ideológico, acabo por fazer também a escolha de colocar no mundo a ação que
mais me faz sentido, assim, aquilo que chamo de performance tanto é uma
necessidade da geração de pergunta quanto de uma relação com um permitir-se
mover.
Não me
encontro politicamente engajado senão pelo desdobramento de meu estado
criativo, de estar no mundo como um processo potente, sem verdades prontas, sem
respostas, no meio do questionamento sobre limites, fronteiras, loucura e
sanidade, e entendendo que tudo passa de todas as formas pelo corpo.
Não sei
dizer como e sei que isso não é uma regra e justamente pode servir como
contrário do que comigo ocorre.
Mas,
tenho percebido que a viagem para dentro está me levando pra fora, para o
encontro, para o mundo.
Fico
feliz com esse borramento de limites entre aquilo que costumo chamar de dentro
e aquilo que costumo chamar de fora.
Não
compreendendo ainda como conseguimos nos organizar socialmente de forma tão
pouco sinestésica.
A garantia
do exercício da possibilidade se fazendo atualizar em minhas conexões neurais e
mecânicas.
Ainda que
somente estar parado em pé, em seguida da minha desistência e encontro com a
dor bloqueante nos tornozelos, que por sua vez foi meu alarme mais pungente,
tenha sido o momento de início do aprofundamento de minha pesquisa sobre o MA,
percebo como a ação física e a escolha feita pela inteligência-tornozelo foram
aqueles que me deram tal possibilidade.
Tornei-me
observador de meu próprio movimento e paragem. Tornei-me testemunha do corpo
que estava ali e já não era meu, digamos assim. Ser dançado é algo possível.
Penso que
este contato com a dança me coloca em trânsito, me afasta, a priori, também do
espaço da própria constituição generalizada da dança. Com isto, novamente me
deparo com a possibilidade de trânsito entre fronteiras e encontro a
necessidade de estourar o cano por dentro.
Bueiro me
levou pra cano.
Cano me
levou pra veia e artéria.
Veia e
artéria me levou pra sangue.
Sangue me
parece algo em fluxo contínuo, uma coisa material que me aproxima daquilo devir
e aquilo que seria o corpo do espaço.
Entrar em
sintonia e ressonância com o corpo do espaço.
Estabelecer
pontes, diferentes estações de rádio.
Habilitar
a possibilidade de ruído no canal.
Fazer
esses movimentos o mais apropriadamente possível.
Acho que
é isso que hoje chamo de performar.
Ou,
trazendo uma imagem mais poética:
O corpo está disposto
e sem esforço
estoura seu cano por dentro
o jato fino de sangue mancha o rosto de quem
observa.
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